Waldir Calmon nos anos 60 e
Separados Nada Somos
(Waldir
Calmon - Don Al Bibi). Esta versão está
em seu último disco: Feito Para Dançar
(Copacabana Discos,1980)
Waldir Calmon tinha uma
agenda cheia, dividindo-se
entre as gravações, a
produtora, os bailes (às
vezes, dois por dia), a TV e a sua
boate. No entanto, os
frequentadores da Arpège
reclamavam quando ele
viajava e era substituído
por outro conjunto, gerando
grande insatisfação. Essa
rotina desgastante durou até
o começo dos anos 60, quando Brasília foi
inaugurada, em 21 de abril
de 1960. A
mudança da capital federal
do Rio de Janeiro para
Brasília foi um divisor de águas
na noite carioca. Políticos,
empresários e pessoas
influentes deixaram o Rio,
levando boa parte do
dinheiro que circulava na
noite.
A música, em geral, também
passou por uma grande
transformação: no Brasil, a
bossa-nova surgia e, no
mundo, o rock. O golpe de
Estado no Brasil, em 31 de
março de 1964, trouxe uma
reformulação musical
profunda onde as letras
passaram a ter um papel mais
importante, transformando-se
em veículo de
conscientização das massas e
disputando espaço com a
música de puro
entretenimento. Aos poucos,
melodia e ritmo foram
relegados a segundo plano -
dois dos maiores trunfos do
instrumentista Waldir
Calmon. Mesmo assim,
continuou gravando, mas a
vendagem de seus discos
começou a cair
progressivamente. Em 1962,
casou-se com a cantora
Marta
Kelly
e teve seus dois únicos filhos: Marcia
e Marcus. Abaixo,
quadros de Marta e Waldir
Calmon assinados pelo
desenhista, ator e
publicitário Sérgio Malta
(clique para ampliar).
Em 1962, Waldir abriu um
espaço "jovem" na
Arpège: algumas
tardes passariam a ter
rock, twist, e muito
balanço e ficariam a
cargo de Wilson Simonal,
Reinaldo Rayol, e Renato
e seus Blue Caps, entre
outros. Logo, as tardes
aconteceriam também aos
domingos e Waldir Calmon
fechava contrato com o
Clube do Rock.
Na foto, Waldir e a nova
geração, em 1962. Clique
na foto para ampliar.
Por volta de 1966, além das
jovens tardes, a Arpège
passou a exibir shows do
bloco Cacique de Ramos,
levando para o Leme o melhor
das escolas de samba.
Mesmo com todas estas
inovações, a boate não
estava conseguindo se
adaptar à nova realidade da
noite carioca, que havia se
esvaziado com a perda do
status de capital
federal.
O selo Arpège
e a produtora acabaram e,
em 1967, a boate foi
arrendada pelo compositor e
cantor Ataulfo Alves e passou a se
chamar Sarau, fechando
definitivamente um ano
depois.
Waldir então começou a fazer
temporadas pelo Brasil até
que, em 1969, o diretor
artístico do extinto
Canecão,
Wilton Franco, convidou-o
para animar a casa de
shows em Botafogo, Rio de
Janeiro.
Entre o final dos anos 50 e
começo dos 60, Waldir também
passou a tocar órgão
Hammond,
seguindo a tendência
mundial. Segundo o pianista
e amigo Jota Júnior, ele
adquiriu um Hammond B2
que, pouco tempo depois, foi
vendido para o empresário e
bandleader paulista
Ed Costa. No mesmo dia,
porém, comprou o famoso
Hammond B3 que o
acompanhou profissionalmente
até o fim da vida.
Clique aqui para
ver uma sequência de fotos
de Waldir e seu conjunto
fazendo um anúncio na TV
Ceará.
Cristaleira com alguns
dos troféus, prêmios e
medalhas de Waldir Calmon.
Marta Calmon
Em 1962, Marta foi convidada
pelo compositor Humberto
Teixeira para participar da
5ª Caravana da Música
Popular Brasileira -
grupo patrocinado pelo
governo federal que tinha
como objetivo divulgar a
música popular brasileira no
exterior. Nomes como Waldir
Azevedo, Dalton Vogeler,
Orlando Silveira, Francisco
El Broto Carlos e
Darlene Glória fizeram parte
deste show que viajou por
toda a Europa e parte do
Oriente Médio. No Brasil, o
grupo gravou dois LPs promocionais e quatro
das faixas, em que Marta aparecia como solista,
foram relançadas em um
compacto duplo, pelo selo
Decca, na França e na
Espanha. Clique nas fotos
para ampliá-las.
A gravação
que ouvimos aqui é do samba
Do Rio a Paris
(Marino Pinto - Pernambuco),
com Marta Kelly, que está no LP e no compacto
duplo. No canal Marcia
Calmon, no YouTube, há
vídeos de Marta Calmon.
Do Rio a Paris com Marta Kelly
Capa do boletim da UBC
(União Brasileira de
Compositores) e flâmula
da 5ª Caravana da
Música Popular
Brasileira.
Clique nas miniaturas
para vê-las em tamanho
maior.
Já de volta ao Brasil, em
1962, Marta foi convidada para cantar
Do Rio a Paris na TV Tupi do
Rio de Janeiro. O maestro
Pachequinho fez um arranjo
diferente do disco, com
cordas e um belo naipe de
sopros, e Waldir fez a
transcrição. Abaixo, algumas
das partituras transcritas
da grade.
É preciso
esclarecer como os termos
transcrição e grade
são
usados na música. Quando um
maestro cria um arranjo, ele
o dispõe em uma grade:
uma grande folha
pautada que, dependendo do
tamanho da orquestra ou
banda, será maior ou menor.
Cada instrumento corresponde
a uma pauta (ou pentagrama)
e são dispostos um abaixo do
outro. Desta forma, podemos
observar o que será tocado
por todos os instrumentos no
mesmo compasso
simultaneamente. A grade é a
guia do maestro e dali saem
as partituras para cada
instrumento, individualmente
(clique
aqui
para ver um exemplo). A este
processo, chamamos
transcrição. Antes
dos computadores, as
transcrições eram feitas,
manualmente, por músicos que
tinham um belo ponto
("letra") e que eram
chamados de copistas.
Havia um amplo mercado de
trabalho para copistas em
estúdios, rádios e TVs.
Clique nas miniaturas para
ampliá-las.
LP Waldir Calmon e seus
multisons
Em 1970, gravou o álbum,
Waldir
Calmon e seus Multisons
(Copacabana Discos) que se tornou famoso internacionalmente após a faixa
Airport Love Theme
(Paul Francis Webstef -
Alfred Newman)
ter sido usada como base
para um rap de muito sucesso,
em 2004, despertando a
atenção de DJs do mundo
inteiro. A música que
sampleou a gravação de
Waldir Calmon chama-se
Curls e está no álbum de
estreia
Madvillainy
-
da dupla
Madvillain,
formada pelo MC MF
Doom
e pelo produtor Madlib.
Vários críticos consideraram
o disco como um dos melhores
do gênero. Martin Boev, por
exemplo, escreveu em seu
blog
In Search of Media que
Waldir Calmon “com
sons de órgão e riffs sutis
de guitarra ao fundo, dá uma
vibração sinistra que iria
caber perfeitamente em um
filme de James Bond. Esse
sentimento é capturado na
faixa
Curls, de Madvillain,
perfeitamente (...). Um dos
claros destaques do maior
disco underground de hip-hop
da história.”
Outros raps surgiram da mesma gravação de Airport Love Theme, como
SlyCriminality, por
Kamanchi Sly (2017), e
Lirica Sean P, por
Saggaz & Yellow (2017). Do mesmo LP, as
músicas
Afro Son (Waldir Calmon)
e
Zorra (Waltel Branco)
também têm despertado a
atenção de rappers de
diversas partes do mundo,
mostrando a versatilidade e
a atemporalidade do trabalho
de Waldir Calmon.
Os últimos anos
Em janeiro de 77, após sete
anos no Canecão,
voltou às viagens. Mas, em
abril do mesmo ano, estreou
na
Churrascaria Roda-Viva,
na Urca, Rio. Em dezembro de
78, recebeu uma proposta "irrecusável",
como ele mesmo definia, da
cervejaria e restaurante Bierklause,
no Lido, Rio. Ficou até
maio de 79, quando a direção
da
Churrascaria Roda-Viva
pediu para que voltasse a
tocar na casa, fazendo uma
contraproposta também "irrecusável".
Voltou a gravar em 78 e
lançou o disco
Discoteque
- Feito Para Dançar.
Em 1980, gravou seu último
LP: FeitoPara Dançar.
Este álbum pareceu um
retorno às origens: deixou o
órgão e voltou ao piano
acústico (que, aliás,
preferia tocar). Seu piano
era valorizado pelo ritmo e
acompanhamento claros -
assim como nas primeiras
gravações.
Certo dia, disse-me que
jamais deixara de tocar um
só dia e que gostaria de
morrer trabalhando. "Não
conheço nada no mundo tão
agradável quanto tocar",
explicou-me. Waldir
trabalhou até a madrugada do
dia 11 de abril de 1982.
Pela manhã, reclamou de "umas
dores estranhas no peito".
Não as levou a sério, pois
detestava ir a médicos, e no
meio de um passeio com a
família teve um enfarte
fulminante. Estávamos indo
comemorar o dia da Páscoa.
Separados Nada Somos com Diamantina Gomes
No player
acima, versão
cantada de
Separados Nada Somos,
de Waldir Calmon e Don Al
Bibi. É uma gravação feita
pela cantora Diamantina
Gomes acompanhada da
orquestra de Osvaldo Borba
(Odeon, 1953). Há alguns
problemas na introdução da
música, devido ao desgaste
do disco, mas o registro é
muito interessante. Abaixo,
a partitura de piano desta
gravação.
Moção póstuma de
reconhecimento e aplausos em
homenagem a Waldir Calmon
Em 23 de julho de 2022, a Câmara Municipal do Rio de Janeiro, representada pelo vereador William Siri, homenageou o pianista, compositor e empresário Waldir Calmon com uma moção póstuma por serviços prestados à cultura do País.
Clique nas imagens abaixo
para ampli-a-las.