Waldir Calmon

Biografia (1961-1982)

Waldir Calmon nos anos 60
Separados Nada Somos  
Waldir Calmon nos anos 60 e Separados Nada Somos (Waldir Calmon - Don Al Bibi). Esta versão está em seu último disco: Feito Para Dançar (Copacabana Discos,1980)

Waldir Calmon tinha uma agenda cheia, dividindo-se entre as gravações, a produtora, os bailes (às vezes, dois por dia), a TV e a sua boate. No entanto, os frequentadores da Arpège reclamavam quando ele viajava e era substituído por outro conjunto, gerando grande insatisfação. Essa rotina desgastante durou até o começo dos anos 60, quando Brasília foi inaugurada, em 21 de abril de 1960. A mudança da capital federal do Rio de Janeiro para Brasília foi um divisor de águas na noite carioca. Políticos, empresários e pessoas influentes deixaram o Rio, levando  boa parte do dinheiro que circulava na noite.

A música, em geral, também passou por uma grande transformação: no Brasil, a bossa-nova surgia e, no mundo, o rock. O golpe de Estado no Brasil, em 31 de março de 1964, trouxe uma reformulação musical profunda onde as letras passaram a ter um papel mais importante, transformando-se em veículo de conscientização das massas e disputando espaço com a música de puro entretenimento. Aos poucos, melodia e ritmo foram relegados a segundo plano - dois dos maiores trunfos do instrumentista Waldir Calmon. Mesmo assim, continuou gravando, mas a vendagem de seus discos começou a cair progressivamente. Em 1962, casou-se com a cantora Marta Kelly e teve seus dois únicos filhos:
Marcia e Marcus.  Abaixo, quadros de Marta e Waldir Calmon assinados pelo desenhista, ator e publicitário Sérgio Malta (clique para ampliar).

Marta Calmon por Sérgio Malta     Waldir Calmon por Sérgio Malta

Em 1962, Waldir abriu um espaço "jovem" na Arpège: algumas tardes passariam a ter rock, twist, e muito balanço e ficariam a cargo de Wilson Simonal, Reinaldo Rayol, e Renato e seus Blue Caps, entre outros. Logo, as tardes aconteceriam também aos domingos e Waldir Calmon fechava contrato com o Clube do Rock. Na foto, Waldir e a nova geração, em 1962. Clique na foto para ampliar.

Por volta de 1966, além das jovens tardes, a Arpège passou a exibir shows do bloco Cacique de Ramos, levando para o Leme o melhor das escolas de samba. Mesmo com todas estas inovações, a boate não estava conseguindo se adaptar à nova realidade da noite carioca, que havia se esvaziado com a perda do status de capital federal. O selo Arpège e a produtora acabaram e, em 1967, a boate foi arrendada pelo compositor e cantor Ataulfo Alves e passou a se chamar Sarau, fechando definitivamente um ano depois. Waldir então começou a fazer temporadas pelo Brasil até que, em 1969, o diretor artístico do extinto Canecão, Wilton Franco, convidou-o para animar a casa de shows em Botafogo, Rio de Janeiro.

Entre o final dos anos 50 e começo dos 60, Waldir também passou a tocar órgão Hammond, seguindo a tendência mundial. Segundo o pianista e amigo Jota Júnior, ele adquiriu um Hammond B2 que, pouco tempo depois, foi vendido para o empresário e bandleader paulista Ed Costa. No mesmo dia, porém, comprou o famoso Hammond B3 que o acompanhou profissionalmente até o fim da vida. Clique aqui para ver uma sequência de fotos de Waldir e seu conjunto fazendo um anúncio na TV Ceará.

Cristaleira com troféus e prêmios
Cristaleira com alguns dos troféus, prêmios e medalhas de Waldir Calmon.

 

Marta Calmon

Em 1962, Marta foi convidada pelo compositor Humberto Teixeira para participar da 5ª Caravana da Música Popular Brasileira - grupo patrocinado pelo governo federal que tinha como objetivo divulgar a música popular brasileira no exterior. Nomes como Waldir Azevedo, Dalton Vogeler, Orlando Silveira, Francisco El Broto Carlos e Darlene Glória fizeram parte deste show que viajou por toda a Europa e parte do Oriente Médio. No Brasil, o grupo gravou dois LPs promocionais e quatro das faixas, em que Marta aparecia como solista, foram relançadas em um compacto duplo, pelo selo Decca, na França e na Espanha. Clique nas fotos para ampliá-las.

LP Brasilia Samba (capa)     LP Brasilia Samba (contracapa)     Compacto duplo de Marta Kelly (capa)     Compacto duplo de Marta Kelly (contracapa)

A gravação que ouvimos aqui é do samba Do Rio a Paris (Marino Pinto - Pernambuco), com Marta Kelly, que está no LP e no compacto duplo. No canal Marcia Calmon, no YouTube, há vídeos de Marta Calmon.
Do Rio a Paris com Marta Kelly  

Capa do boletim da UBC (União Brasileira de Compositores) e flâmula da 5ª Caravana da Música Popular Brasileira. Clique nas miniaturas para vê-las em tamanho maior.

Capa do Boletim da UBC

Flâmula da 5ª Caravana da Música Popular Brasileira

Já de volta ao Brasil, em 1962, Marta foi convidada para cantar Do Rio a Paris na TV Tupi do Rio de Janeiro. O maestro Pachequinho fez um arranjo diferente do disco, com cordas e um belo naipe de sopros, e Waldir fez a transcrição. Abaixo, algumas das partituras transcritas da grade.

É preciso esclarecer como os termos transcrição e grade são usados na música. Quando um maestro cria um arranjo, ele o dispõe em uma grade: uma grande folha pautada que, dependendo do tamanho da orquestra ou banda, será maior ou menor. Cada instrumento corresponde a uma pauta (ou pentagrama) e são dispostos um abaixo do outro. Desta forma, podemos observar o que será tocado por todos os instrumentos no mesmo compasso simultaneamente. A grade é a guia do maestro e dali saem as partituras para cada instrumento, individualmente (clique aqui para ver um exemplo). A este processo, chamamos transcrição. Antes dos computadores, as transcrições eram feitas, manualmente, por músicos que tinham um belo ponto ("letra") e que eram chamados de copistas. Havia um amplo mercado de trabalho para copistas em estúdios, rádios e TVs. Clique nas miniaturas para ampliá-las.
Partitura do Rio a Paris (Piano 1) Partitura do Rio a Paris (Piano 2)
Partitura do Rio a Paris (Piano 3) Partitura do Rio a Paris (baixo)
Partitura do Rio a Paris (bateria) Partitura do Rio a Paris (flauta)
Partitura do Rio a Paris (sax alto) Partitura do Rio a Paris (cello)
Partitura do Rio a Paris (viola) Do Rio a Paris (violino)

 

LP Waldir Calmon e seus multisons

Em 1970, gravou o álbum,  Waldir Calmon e seus Multisons (Copacabana Discos) que se tornou famoso internacionalmente após a faixa Airport Love Theme (Paul Francis Webstef - Alfred Newman) ter sido usada como base para um rap de muito sucesso, em 2004, despertando a atenção de DJs do mundo inteiro. A música que sampleou a gravação de Waldir Calmon chama-se Curls e está no álbum de estreia Madvillainy - da dupla Madvillain, formada pelo MC MF Doom e pelo produtor Madlib. Vários críticos consideraram o disco como um dos melhores do gênero. Martin Boev, por exemplo, escreveu em seu blog In Search of Media que Waldir Calmon “com sons de órgão e riffs sutis de guitarra ao fundo, dá uma vibração sinistra que iria caber perfeitamente em um filme de James Bond. Esse sentimento é capturado na faixa Curls, de Madvillain, perfeitamente (...). Um dos claros destaques do maior disco underground de hip-hop da história.”

Outros raps surgiram da mesma gravação de Airport Love Theme, como SlyCriminality, por Kamanchi Sly (2017), e Lirica Sean P, por Saggaz & Yellow (2017). Do mesmo LP, as músicas Afro Son (Waldir Calmon) e Zorra (Waltel Branco) também têm despertado a atenção de rappers de diversas partes do mundo, mostrando a versatilidade e a atemporalidade do trabalho de Waldir Calmon.

LP Waldir Calmon e seus multisons (Copacabana Discos, 1970) capa     LP Waldir Calmon e seus multisons (Copacabana Discos, 1970) contracapa

 

Os últimos anos

Em janeiro de 77, após sete anos no Canecão, voltou às viagens. Mas, em abril do mesmo ano, estreou na Churrascaria Roda-Viva, na Urca, Rio. Em dezembro de 78, recebeu uma proposta "irrecusável", como ele mesmo definia, da cervejaria e restaurante Bierklause, no Lido, Rio.  Ficou até maio de 79, quando a direção da Churrascaria Roda-Viva pediu para que voltasse a tocar na casa, fazendo uma contraproposta também "irrecusável".

Voltou a gravar em 78 e lançou o disco Discoteque - Feito Para Dançar. Em 1980, gravou seu último LP: Feito Para Dançar. Este álbum pareceu um retorno às origens: deixou o órgão e voltou ao piano acústico (que, aliás, preferia tocar). Seu piano era valorizado pelo ritmo e acompanhamento claros - assim como nas primeiras gravações.

Certo dia, disse-me que jamais deixara de tocar um só dia e que gostaria de morrer trabalhando. "Não conheço nada no mundo tão agradável quanto tocar", explicou-me. Waldir trabalhou até a madrugada do dia 11 de abril de 1982. Pela manhã, reclamou de "umas dores estranhas no peito". Não as levou a sério, pois detestava ir a médicos, e no meio de um passeio com a família teve um enfarte fulminante. Estávamos indo comemorar o dia da Páscoa.
Separados Nada Somos com Diamantina Gomes  
 
No player acima, versão cantada de Separados Nada Somos, de Waldir Calmon e Don Al Bibi. É uma gravação feita pela cantora Diamantina Gomes acompanhada da orquestra de Osvaldo Borba (Odeon, 1953). Há alguns problemas na introdução da música, devido ao desgaste do disco, mas o registro é muito interessante. Abaixo, a partitura de piano desta gravação.

Partitura de Separados, nada somos     Partitura de Separados, nada somos     Partitura de Separados, nada somos

 

Moção póstuma de reconhecimento e aplausos em homenagem a Waldir Calmon

Em 23 de julho de 2022, a Câmara Municipal do Rio de Janeiro, representada pelo vereador William Siri, homenageou o pianista, compositor e empresário Waldir Calmon com uma moção póstuma por serviços prestados à cultura do País. Clique nas imagens abaixo para ampli-a-las.

Moção em homenagem a Waldir Calmon     Moção em homenagem a Waldir Calmon